Terapias de elevado custo, judicialização crescente e mortes evitáveis: IESS debate os desafios da previsibilidade na saúde suplementar
São Paulo, 20 de maio de 2026 – Terapias gênicas que chegam a R$ 18 milhões por paciente, milhares de mortes evitáveis por ano no Brasil, judicialização crescente e um sistema ainda marcado pela fragmentação de dados. Esse foi o cenário que pautou os debates do painel promovido ontem (20/05) pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar durante a Hospitalar 2026, em São Paulo.
O IESS reuniu representantes do setor, pesquisadores e especialistas para analisar alguns dos temas mais sensíveis da saúde suplementar atualmente: como conciliar inovação, previsibilidade, acesso e sustentabilidade em um ambiente de pressão crescente sobre custos, judicialização e incorporação tecnológica. Acompanharam presencialmente diretores e técnicos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Na abertura do evento, Luiz Celso Dias Lopes, presidente do Conselho Diretor do IESS, destacou que o desafio atual não está em resistir à inovação, mas em criar condições para que ela seja incorporada de forma sustentável.
“Inovação é inevitável, cada vez mais veloz. Mas também amplia custos. A questão é como agregar valor, e não apenas custos, e fazer com que essa inovação seja sustentável”, afirmou. Segundo ele, trata-se de um desafio mundial, que afeta tanto sistemas públicos quanto privados.
Lopes também chamou atenção para a importância da previsibilidade regulatória e jurídica para o funcionamento do setor. “Não sabemos qual será o resultado do jogo, mas precisamos saber quais são as regras e qual é o papel de cada jogador. E que a regra não seja alterada durante o jogo”, afirmou.
O primeiro painel do evento, “Inovação e os Desafios da Previsibilidade”, foi mediado por José Cechin, membro do Conselho Diretor do IESS, e reuniu Rogério Scarabel, ex-diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e sócio da M3BS Advogados; Daniel Wang, professor da FGV-SP; e Cassio Ide Alves, diretor médico da Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde), para analisar os impactos da judicialização e da incorporação tecnológica sobre a saúde suplementar e os riscos impostos ao sistema.
Durante o debate, Cechin destacou o crescimento das ações judiciais envolvendo saúde suplementar e defendeu a necessidade de separar demandas relacionadas a direitos líquidos e certos de situações que extrapolam contratos e cálculos atuariais previamente estabelecidos. Também ressaltou a importância da Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) considerar não apenas segurança e eficácia, mas custos, impacto financeiro e sustentabilidade do sistema.
Ao abordar a decisão do Supremo Tribunal Federal na ADI 7265, Daniel Wang ressaltou que o julgamento estabeleceu critérios importantes relacionados à exigência de evidência científica para tratamentos fora do rol da ANS, mas alertou para as dificuldades de aplicação prática desses parâmetros nos casos concretos.
Rogério Scarabel chamou atenção para a crescente complexidade regulatória e judicial do setor. “O espaço regulatório ficou muito mais complexo. Hoje há influência do Judiciário, dos órgãos de defesa do consumidor, das redes sociais e dos próprios beneficiários sobre o funcionamento do sistema”, afirmou.
Scarabel também destacou a pressão provocada por terapias inovadoras de altíssimo custo e pela crescente imprevisibilidade relacionada a despesas não precificadas previamente pelas operadoras. “Apesar de o setor movimentar quase R$ 400 bilhões em receitas, as margens operacionais estão cada vez mais pressionadas”, afirmou.
Já Cassio Ide Alves afirmou que o sistema de saúde enfrenta simultaneamente uma profunda transformação demográfica, epidemiológica e tecnológica. Segundo ele, ferramentas como ATS e medicina baseada em evidências tornam-se essenciais para selecionar quais tecnologias efetivamente geram valor em saúde. O executivo também alertou para o risco de deslocamento excessivo de recursos para terapias de elevado custo em detrimento de ações de prevenção, promoção da saúde e cuidado populacional.
Dados que viram valor
No segundo painel, “Do dado ao valor em Planos de Saúde”, o foco migrou da judicialização para o potencial estratégico dos dados e da inteligência artificial na saúde suplementar. Mediado por Denizar Vianna, superintendente executivo do IESS, o debate reuniu Anderson Farias, CEO da TopSaúde Hub; Alberto José N. Ogata, professor e pesquisador da FGV; e Bruno Sobral de Carvalho, diretor-executivo da Fenasaúde.
Na abertura do painel, Denizar Vianna relembrou experiências recentes de integração de dados no Brasil, como o ConnectSUS e o PIX, no sistema financeiro, e questionou por que a saúde ainda enfrenta tantas dificuldades para avançar em interoperabilidade e coordenação do cuidado. O superintendente do IESS destacou que o Brasil registra mais de 800 mil mortes anuais por causas evitáveis, com base em dados do Ministério da Saúde. “O Brasil enfrenta uma pandemia silenciosa de mortes evitáveis todos os anos”, afirmou.
Anderson Farias afirmou que o setor de saúde suplementar ainda opera com sistemas pouco integrados e grande volume de informações não estruturadas. Segundo ele, a inteligência artificial amplia significativamente a capacidade de análise preditiva e pode permitir intervenções mais precoces, maior eficiência assistencial e redução de desperdícios.
Utilizando estudos do próprio IESS, Alberto Ogata enfatizou que há muito conhecimento produzido e grande oportunidade para que o sistema se aproprie dessas informações, sobretudo pensando em previsibilidade e coordenação de cuidados. Citou o crescimento dos diagnósticos de câncer colorretal na saúde suplementar, o aumento das cirurgias bariátricas e os milhões de brasileiros que vivem com sequelas após AVC. “A gente discute quanto custa a cirurgia bariátrica, mas talvez a principal pergunta seja: por que não estamos conseguindo evitar a obesidade?”, afirmou. Segundo ele, o desafio não é apenas discutir cobertura assistencial, mas utilizar dados para antecipar riscos, fortalecer prevenção e melhorar desfechos em saúde.
Bruno Sobral também destacou que o Brasil possui uma enorme reserva de dados em saúde, mas ainda carece de cultura de avaliação de desfechos, padronização de indicadores e integração entre os agentes do sistema. Para ele, o uso estruturado de dados pode apoiar decisões regulatórias, avaliação de tecnologias em saúde em mundo real e planejamento de longo prazo para o setor.
Durante o evento, o IESS recebeu homenagem da organização da Hospitalar 2026 pelos seus 20 anos de atuação dedicados à produção de estudos técnicos e à qualificação do debate sobre saúde suplementar no Brasil.
